SÉRIE: CONVERSANDO COM...
Conversando com a professora MARIA RAINÉLIA ALFONSO diretora da Escola Estadual de Ensino Médio Dom Antônio Zattera
Com 17 (dezessete) anos, ingressei no Magistério e fui lotada numa Escola Municipal, localizada no
interior do Município onde morava. Sertão (Passo Fundo) - RS
Na época tínhamos que desenvolver três disciplinas diariamente onde o Diário do Professor era
retratado fielmente por um dos alunos diariamente. Tínhamos também a incumbência de prepararmos a merenda e, ainda, responsáveis pela limpeza da Escola.
Lembro saudosamente, de vários afilhados que recebi dentre os alunos. Hoje certamente são pais e
possivelmente avós, assim como eu o sou! Há pouco tempo recebi o convite de casamento da mais jovem afilhada. Guardo-os todos com muito carinho em minhas lembranças e orações.
Ao visitar uma das Escolas tempos atrás, disse-me uma das mães: - Temos saudades das festas que tu
organizavas... (“Dia das Mães, dos Pais, das Crianças, Festas Juninas etc... etc...)
Sim. Sempre fui muito festeira. E as famílias eram muito unidas. No interior, a Escola tinha um lugar
de destaque – Era o Padre que vinha aos Domingos, e a Professora que muitas vezes estava com todos na Igreja nos fins de semana. Foram muitas as alegrias que vivi nesta época.
Porém, decidi terminar o Ensino Médio e tinha a intenção de Cursar uma Faculdade. Por isso, deixei
minhas atividades nas Escolas do Interior e fui removida para a Sede.
Em seguida veio o casamento, transferência de cidade e a oportunidade de realizar minha Graduação.
Escolhi o Curso de Letras. Amei. Fiz estágio em escola Pública Estadual, novo ambiente, também, era outra cidade. Muitas novidades. Fui muito bem.
A vida reservou-me muitas surpresas. Tristes e alegres. Hoje sei que todas me ajudaram crescer como ser humano e como profissional.
Já em Pelotas, ano de 1995, fui aprovada no Concurso Estadual. Nomeada, percebi que precisava
estudar. Escolhi o Curso de Pedagogia, que me habilitou em Orientadora Educacional e Professora de Séries Iniciais, além, obviamente de Professora de Ensino Médio de algumas Disciplinas.
Agora já tinha uma carga horária de 40h semanais. No final do primeiro ano de trabalho recebi o
destaque de Professora Homenageada. Nos anoseguintes Professora Paraninfa, Professora Conselheira de Turmas. Sempre me disponibilizei para participar do CPMs e dos Conselhos Escolares das Escolas onde trabalhei. Considero-me participativa e ativa nestes ambientes.
Percebo que minha caminhada de Professora está marcada fortemente pela presença carinhosa dos
alunos, pais e colegas. Isto é gratificante.
Agradeço os espaços das Escolas: Santo Antônio (dois anos); Escola Nossa Senhora Aparecida (um ano) e Escola Coronel Pedro Osório que foi onde mais estive ( mais de dez anos)
2.Como foi sua experiência anterior junto ao CASE – Pelotas?
Uma oportunidade fantástica. Aconteceu no melhor momento da minha vida de Professora. Queria
novos desafios. Esta Escola tem muitos. A cada dia um novo desafio. Porém, a cada dia muitas situações com novas aprendizagens. Estas são os impulsos, são os fluídos necessários para o nosso “fazer pedagógico” mostrar-se capaz e efetivamente enriquecedor aos nossos aprendentes. Foram oito anos de dedicação e aprendizagens.
3) Como a senhora entende a educação junto aos jovens internos nos Centros de Atendimento Sócio Educativos?
Além, do cumprimento Legal, uma necessidade pontual. Muitos jovens não se escolarizaram por
razões diversas, e chegam nesta Escola com todas as lacunas de aprendizagens para serem trabalhadas.
Verbalizam que deixaram de estudar porque “NÃO” gostam de estudar. Alguns, sequer sabem o nome das Escolas que freqüentaram... Muitos, não lembram o nome de suas professoras...
Entendo que é uma necessidade primordial a existência da Escola nestes espaços, pois, “Ela”, garante de forma efetiva as aprendizagens necessárias para sua escolarização e, ainda, diferentes situações para melhor compreenderem as oportunidades que lhes são apresentadas para que mudem os rumos de suas vidas.
4) Quais as principais dificuldades e desafios de uma escola que atua junto a um CASE?
A falta do reconhecimento público sobre a importância das atividades pedagógicas que devem ser
desenvolvidas nestes espaços. O desrespeito pelas estruturas físicas que deixam de ser realizadas para que se tenha melhores condições de trabalho. A NÃO valorização do quadro de profissionais que atuam nestas Escolas. As especificidades destas Escolas são inúmeras, porém, tem o mesmo tratamento das demais ...
5) Para a senhora, como os alunos vêem nossa escola?
Muitos deles na entrevista, dizem que só vem à Escola por que são obrigados. No entanto, depois de
algum tempo, vejo-os entusiasmados, receptivos e desejosos em ali estar. A prova disso,está na forma do atendimento das propostas feitas pelos professores, no cuidado com seu material, nos pedidos de novos desafios, e ainda, na solicitação do endereço de Escolas que sejam como a nossa.
6) A educação formal, na vida de um jovem em atendimento sócio educativo, é mero formalismo ou realmente permite a transformação em suas vidas?
Não percebo assim. Considero necessária para oportunizar o crescimento intelectual, cultural e acima de tudo o crescimento moral que lhes dará a possibilidade de mudança em suas trajetórias de vida.
7) Considerando sua trajetória junto a esta escola, seria possível traçar causas da criminalidade de jovens e sugerir soluções para esse problema?
O despreparo das pessoas para assumirem estes filhos. O descompromisso destas pessoas para com a prole. A falta de limite dos filhos, a falta de referência , leva-os às ruas, e esta lhes dá autonomia,
empoderamento e liberdade, como conseqüência a vulnerabilidade social, violência, drogadição e crime.
Sou otimista. Acredito piamente que temos uma saída positiva para estas questões de criminalidade.
Investir na criança para que ela seja um adulto responsável, capaz, feliz!Só assim, teremos um retrocesso possível de criminalidade. Investir na criança para ter um adolescente ajustado e um adulto responsável.

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